Resenha: Mocotó – resiliência gastronômica em SP

São Paulo é uma cidade superfaturada. Ponto. Tudo aqui é absurdamente caro, independente de ser bom ou ruim, a única certeza é o preço exacerbado de qualquer fucking coisa. Aí, as paulistane troxa like moi fica over the moon quando aparece algo bom com preço justo, né? E esse é o caso do Mocotó (o restaurante do Rodrigo Oliveira and pai, não o André Marques na Malhação).

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Não que o Mocotó tenha aparecido agora, óbvio. O restaurante da Vila Medeiros existe há mais de 40 anos e o não tão recente boom gastronômico no entretenimento contribuíram para o hype do local, que democraticamente – e sem qualquer tipo de frescura – abriga as diferentes panelinhas paulistanas. De heterotops à pocs escândalo, de vizinhos da quebrada à gringos extasiados com torresmo, o lugar traz aquela sensação de acolhimento tão necessária à cidade.

E isso não se resume ao restaurante, o entorno também segue as mesmas regras. O estacionamento na esquina ou o vigia velhinho (e corinthiano) de carros também passam essa vibe. E isso, só quem é de quebrada vai entender. Essa coisa orgulhosa de bairro, mas com a cordialidade de cidade do interior, onde todo mundo se conhece e se cumprimenta. Do outro lado da rua, uma casa de bairro com o jardim lotado – repito LOTADO – de rosas deixa o coração mais quentinho entre prédios envidraçados e portões blindados que proliferaram em todos os bairros.

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Mocotó segue a tendencia de não oferecer somente serviços, mas sim experiencias. E essa começa com o host, simpático e preparado, que imediatamente nos guiou à mesa (vaga graças a uma terça-feira chuvosa e fria de primavera, acredito). A equipe tem uma sintonia digna de família que não brigou por causa da eleição e todo mundo parece se divertir, entender e respeitar, independente da hierarquia, se é que isso existe ali. Depois da entrega dos cardápios, a garçonete Cássia se apresentou e nos deu todo o tempo do mundo para escolher, permanecendo atenta, sem nos deixar desconfortáveis (eu levo isso muito à sério porque já não saio de casa direito, né gente?).

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Bolinho de mandioquinha e linguiça do Mocotó

Para começar, pedimos os famosos dadinhos de tapioca , caldo de mocotó e o petisco do dia. Para beber, o Chá de Abacaxi, que não tinha. O substituto foi o maravilhoso o suco de morango com umbu. O petisco do dia era bolinho de mandioquinha com linguiça – disponível apenas às terças-feiras – e vem com dois quartos de limão, como em porções de quibes ou bolinhos de bacalhau. Certamente meu preferido nesse primeiro round. Eu preferi comer com o molho agridoce dos dadinhos de tapioca (falo deles já já), mas o limão casa bem, realça o sabor e “corta” a fritura. Esses bolinhos tiveram uma pequena complicação: originalmente, pedimos duas porções grandes – uma dos dadinhos e outra dos bolinhos – cada uma com doze unidades. A de bolinhos veio pequena, com seis unidades e ao questionar se viriam os outros seis, a garçonete resolveu prontamente, trazendo a nossa porção original de doze bolinhos e deixando a pequena na mesa, dizendo sorridente:”Pronto, ganharam meia porção!”.

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Dadinhos de tapioca com molho agridoce do Mocotó

Os dadinhos de tapioca – hoje tão copiados e difundidos, graças a deus! – cubinhos dourados, sequinhos por fora e cremosos por dentro. Fui herege e não comi os dadinhos, mas isso se deve ao fato de ter queijo coalho na massa e minha intolerância a lactose não me deixaram comer. Mas minha mãe e irmã se esbaldaram, então acredito na palavra delas pra fazer a resenha. E também eu comi todo o molhinho agridoce apimentado, que vem como acompanhamento e eu particularmente comeria até com sola de sapato.

Sério.

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Caldo de Mocotó do Mocotó

O caldo de mocotó mini – que de mini não tem nada – chegou praticamente fervendo e foi um afago no clima frio e atípico de novembro. Bem temperado, suntuoso, riquíssimo com pedacinhos do colágeno bovino vem guarnecido de cebolinhas picadas, que trazem o frescor verde ao paladar.

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Carne de sol com pimenta biquinho e alho assado do Mocotó

No prato principal, ninguém topou dividir um joelho assado – mesmo sendo meu aniversário e todos serem obrigados a ser meus escravos – então optei pela carne de sol assada com pimenta biquinho e alho assado foi a melhor escolha da noite, quiçá do ano.

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Chips de mandioca do Mocotó

Enfim, a carne macia e rosada vem em fatias sobre um molho quase translúcido, onde as pimentas biquinho ficam mezzo imersas (tipo mãe na praia, que entra no mar só até os joelhos? Então, assim). O alho, assado inteiro, explode dos dentes em um purê perfumado assim que é tocado com a colher, como acompanhamento, chips de mandioca bem crocantes e dourados, que eu comeria quilos por dia, principalmente com o alho assado e a pimentinha DANADA que fica na mesa.

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Cartola de Engenho do Mocotó

A cartola de engenho lembra uma lagarta gorda, em cima da terra. Banana, queijo-manteiga gratinado e farofinha de açúcar e canela fez bastante sucesso com minha mãe e irmã. Não experimentei por causa do queijo de novo, mas como disse antes, acredito na palavra delas pois são as pessoas mais incrivelmente chatas pra comer e sair do universo.

Só um adendo: eu não sou chata pra sair, tenho fobia, é diferente.

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Creme brulée de doce de leite do Mocotó

Minha amiga Mari pediu um creme brulée de doce de leite e a surpresa veio pois ENORME e nada enjoativo. Todo mundo tava esperando algo extremamente doce, mas é super levinho e nem mesmo a crostinha de açúcar queimado típica de creme brulée era doce demais.

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Bolo de chocolate e cupuaçu com castanha-do-Pará do Mocotó

Como era meu aniversário, pedi o bolo de chocolate com cupuaçu e castanha-do-(vamo)-pará que foi o mais nhé da refeição toda e vou explicar porquê: é um ótimo doce, mas não tããão especial quanto tudo o que provamos. O bolo é bem cremoso, com textura que lembra o cafoníssimo petit gateau e na primeira garfada dá para sentir o sabor do chocolate, cupuaçu e os pedacinhos de castanhas. Na segunda, o açúcar começa a dominar e no fim, só o sorvete de creme levíssimo que acompanha, salva. Mas ó, é um ótimo doce para comer na TPM.

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G-zuz esse texto tá o próprio Pernalonga de batom mas espero ter conseguido explicar a delícia que é o Mocotó e por quê todo mundo que mora/visita São Paulo deveria ir lá.

Imagens: Groselhices e Reprodução

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